Artigos


Conhecimento Tácito e o Treinamento do Centro Evangélico de Missões

Em uma reunião dos coordenadores da escola, fiquei atenta quando surgiu a questão de como saber se o conhecimento acadêmico está sendo posto em prática – já que a proposta do treinamento missionário do CEM é oferecer um programa que englobe o ser, o fazer e o saber.

Isso me levou a pensar: era preciso que  a área acadêmica avaliasse o aluno em suas atividades práticas ou ministeriais, para verificar se aprendeu ou não? Encontrei a resposta no tema do Conhecimento Tácito!

Tácito é uma palavra de origem latina e significa “silencioso”; Michael Polanyi se tornou um dos autores precursores desta teoria, quando escreveu The Tacit Dimension em 1966.

Em minha busca por respostas, percebi ainda que os currículos e diplomas não atestam todo o conhecimento que a pessoa tenha adquirido durante os anos de vida, tanto social como acadêmica, e que o desempenho está mais dependente do conhecimento tácito que do intelectual. Pesquisei um pouco mais sobre o tema e foi ficando claro para mim como devemos avaliar nossos alunos.

Polanyi disse que “sabemos mais do que podemos dizer”; ainda segundo o autor, este tipo de conhecimento é difícil de formalizar, comunicar, compartilhar. Não é mensurável! Mas pode ser perceptível em situações específicas.

De fato, todas as oportunidades do processo de aquisição de conhecimento utilizado no CEM – entre teoria e prática como metodologia, no espaço de 22 meses – não estão apenas na sala de aulas mas também – e principalmente – nas devocionais (individuais e em grupo); encontros de mentoria e com o Deanato e com seu mentor; reuniões de planejamento; estágios em equipe e em instituições locais; relacionamento pessoal nos alojamentos e na comunidade, com os professores e com a equipe de base da escola; e muitas outras. Todas estas atividades estão gerando conhecimento tácito que permeará as relações e atitudes desses alunos.

Assim, podemos perceber as mudanças de postura dos alunos no decorrer do treinamento.

Estamos vivendo na “Era do Conhecimento” e todas as organizações estão preocupadas em gerir esses conhecimentos. Pense naquele funcionário antigo da empresa, que domina uma área com destreza e que, no dia que falta, o setor para! A boa notícia é que há como transformar esse conhecimento tácito no chamado “conhecimento explícito”, gerando documentos importantes para melhores práticas, tais como: políticas, procedimentos, informações, documentos e manuais. Tudo isso alinhado à missão da instituição!

No caso de indivíduos, para que o conhecimento tácito seja adquirido pelos alunos de um treinamento missionário, é necessário que ocorra o aprendizado na observação, nos trabalhos em grupos e na convivência, na realização das tarefas e na aplicação da palavra de Deus como coluna da verdade, entre outros.

De forma simplificada, são quatro fases pelas quais passamos para adquirir conhecimento, de acordo com a teoria. A socialização é onde os indivíduos adquirem conhecimentos dos demais – “o indivíduo não nasce com o conhecimento e nem é dado pelo meio social; o indivíduo aprende a construir seu conhecimento através do meio”; depois, na internalização, vemos como os indivíduos internalizam o conhecimento de documentos para sua experiência. A externalização é a articulação do conhecimento em algo tangível pelo diálogo e, finalmente, ocorre o que é chamada de combinação, que é a combinação de formas diferentes de conhecimento explícito, como documentos e base de dados. Esse processo é chamado de “Espiral do Conhecimento”. O que buscamos com o programa de treinamento do CEM é a transformação do indivíduo em uma pessoa melhor – um homem ou uma mulher de Deus mais capacitado/a e maduro/a para servir ao Reino e ao mundo onde vivemos.

Nesse processo, percebemos que o treinamento presencial traz, em si, mais recursos para a aquisição desse conhecimento tácito, pois a socialização expõe-nos a conhecimentos de outros, afetando opiniões, pensamentos e comportamentos.

Seja numa empresa, escola ou igreja, a pessoa não traz, necessariamente, os conhecimentos acadêmicos em si. Como no caso de andar de bicicleta, que Polanyi usa como exemplo: para haver equilíbrio, a pessoa tem que obedecer uma fórmula de física assustadora para leigos, que nunca conseguiriam transformá-la no andar de bicicleta. Entretanto, quando a pessoa anda de bicicleta, executa a fórmula com perfeição, mesmo que nunca venha a saber que exista uma explicação científica – e até fórmula. Ela sabe andar de bicicleta! Isso é conhecimento tácito!

É incrível acompanhar os alunos durante seus processos de aquisição de conhecimentos e ver a transformação de suas condutas, posicionamentos e atitudes. Quantas áreas são tocadas e aprimoradas em um treinamento!

Quando nos reunimos para avaliá-los, não fazemos uma prova de um único tipo de conhecimento, mas atestamos uma mudança e, aos poucos, percebemos que todo o conjunto do programa de treinamento vai produzindo conhecimento tácito – que não vai constar no diploma, nem no currículo! A pessoa é muito mais que documentos e o conhecimento tácito é o diferencial de cada indivíduo!

 

Por Vilza de Azevedo, Coordenadora Acadêmica do CEM-Centro Evangélico de Missões

 

Para a produção desse artigo foram consultados os seguintes links:

Conhecimento Tácito: Revisitando o conceito de Michael Polanyi, por Rosani Elisabete Graebin, Janine Bertelli1, Juliana Matte, Ana Cristina Fachinelli. http://www.ucs.br/etc/conferencias/index.php/mostraucsppga/xvimostrappga/paper/viewFile/4827/1623

Conhecimento Tácito e Explícito – Fonte: Adaptado de Nonaka e Takeuchi

https://www.researchgate.net/figure/Figura-3-Conhecimento-Tacito-e-Explicito-Fonte-Adaptado-de-Nonaka-e-Takeuchi-1995_fig2_312041738